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Romantizando assim

  • Foto do escritor: Bernard Gontier
    Bernard Gontier
  • 5 de jun.
  • 3 min de leitura

Mais ou menos desse jeito, mais ou menos em 1955, alguém sussurra no ouvido de Oscar Peterson: vamos,  cara, a viagem vai durar cerca de 40 horas, é o tempo que leva de Nova Iorque até Dallas. Você tem que ver esse guitarrista texano, o nome dele é Herb Ellis. Sim talvez a gente tenha que trocar de trens em Chicago ou St. Louis. A pergunta, apesar de retórica, parece uma platitude, mas de que outra forma ele iria ouvir o guitarrista? Quase 400 anos antes Bach, que era apaixonado pela música de Buxtehude, viajou um dia inteiro a pé para ouvi-lo tocar. As intenções dos trânsfugas  citados tem uma sutil diferença. Peterson seria o chefe do trio, e o trio em ação significava dinheiro em caixa, sustento, sem mencionar a tal da energia se movimentando. Já Johann Sebastian precisava alimentar a própria alma ao sorver o som do organista teuto-dinamarquês Dieterich Buxtehude.  Em 1982 o roteirista e cineasta Paul Schrader (“Taxi Driver”& etc.) envia um roteiro para Bruce Springsteen, que já era um sucesso em vias de se tonar um fenômeno cultural. Bruce nunca leu, sequer folheou as páginas, mas ficou com o título zanzando na cabeça:  "Born in the U.S.A".O filme com esse nome nunca aconteceu e o álbum "Born in the U.S.A" (1984) lançou a carreira do cantor/compositor ao patamar mundial. Veja, Schrader não conhecia pessoalmente o músico, ele se valeu da intermediação de Jon Landau, braço direito de Bruce, numa atitude equivalente a uma aposta de otimismo. Mais uma reflexão com roupa de lugar-comum - imagine um desconhecido passando dentro de ônibus, um bilhete escrito a mão com uma frase que, num repente, vai descortinar algo na mente do destinatário cujo impacto será a um só tempo tremendo e positivo. A data de entrada para patente dos primeiros transistores de junção bipolar foi em 26 de junho de 1948, feita pelos físicos  da Bell Labs, em cujos quadros figuravam pesquisadores de ciência básica e teóricos, Albert Einstein lá esteve, havia uma permuta de informações entre engenheiros e os funcionários que subiam nos postes telefônicos, bem como executivos de negócios que perseguiam tecnologias que possibilitassem ligações de longa distancia, a dinâmica desse mix poderia ser chamada de  Modelo Linear de Inovação. Ora, esse intercâmbio, e atente ao fato de não se tratar de conversas vazias sobre o clima ou esportes e sim informações vitais, frutos de percepção,  entre os peões e os engenheiros, isso me soa romântico, inda que os motivos fossem outros. A novaiorquina Linda Eastman tinha 26 anos ao entrar no The Bag O’Nails, digamos um boteco descolado na Londres de 1967, mês de maio. Divorciada, mãe de uma menina de 3 anos, trabalhando como fotógrafa free-lancer, esbarra num cara chamado Paul, um ano mais moço do que ela. A grande diferença entre eles, naquele momento, não era a idade e sim o fato de Linda ser uma ilustre desconhecida e o Paul conhecido nos 4 cantos do globo visto o seu sobrenome ser McCartney . Três dias depois eles se encontram numa festa na casa do Brian Epstein (empresário que gerenciou os Beatles). Ainda neste mês de maio eles vão se encontrar em Nova Iorque. Sempre a trabalho, cada qual na sua área. Dois meses depois Paul a convida para um drink. Vamos dizer que, nesse caso, o romantismo não respira essencialmente  apenas no encontro, mas nos 30 anos que eles passaram juntos a partir daí, um casal afinado e ativo da primeira a última página. E o nosso texto aqui se encerra, apenas uma essência aromática e ou eufônica para borrifar o dia do leitor ou leitora.


"Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você”. (Carl Sagan) (Imagem: Mulheres usam espelhos de bolso em meio à multidão para tentar ver a Rainha em Londres, 1966. Foto- James P. Blair)

 
 
 

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